O medo só está na minha frente

Moro no Canadá e sou professora de yoga. Na última aula da turma Bhadrakali, com o professor Jonas Masetti, (https://vedanta.com.br/jonas-masetti) um tema ficou ecoando em mim: a importância de ser eu mesma e o quanto isso reverbera em todas as relações, principalmente nas de confiança. Ser inteira é base para criar laços verdadeiros. É sobre isso que quero escrever.
Por muito tempo, achei que deveria me moldar para ser aceita, que precisava caber nos grupos. E, no fundo, parece que é sempre sobre ser amada. Hoje sinto que melhorei muito em relação a isso, embora essa mudança seja bastante recente. Mas tem outras coisas que, com certeza, ainda faço. Aqui no Canadá não tenho a mesma liberdade que tenho ao conversar com brasileiros, e percebo que não sou inteira nas minhas aulas de yoga. Guardo uma parte de mim para “não assustar”, para manter os alunos, como se fosse algo errado ser espiritual e levar isso comigo. Por aqui o yoga é sentido como algo bem físico e separado, e eu acabo me ajustando a essa separação. Mas tenho trabalhado muito esse ponto em terapia e percebi que já caminhei muito e que nas turmas mais antigas, eu tenho me mostrado e sou muito respeitada. Eu não preciso abandonar minha identidade cultural para ser aceita. Eu posso usar ela como ponte, numa cultura que tem uma tendência a ser independente, autossuficiente, que valoriza a produtividade e o espaço individual. Não significa que isso seja ruim. Mas será que, em algum momento, a independência se transforma em isolamento? Nós, latino-americanos, em muitas de nossas experiências culturais, valorizamos a construção de comunidade, a espiritualidade, a convivência, a troca afetiva. E isso pode ser uma contribuição para a sociedade da qual faço parte agora. Não sou eu que tenho que viver como eles, se eu vim parar aqui, por que não trazer um pouco de mim para eles e ser contribuição ? Trabalhar a consciência corporal, a respiração pode ser a porta de entrada para conversas sobre a relação entre corpo e mente, a consciência, a espiritualidade, o pertencimento. Isso me faz lembrar o meu professor de francês, ele me dizia: “Francine não se preocupe com o seu francês, você é brasileira, é exótica, usa isso ao seu favor”. Mas só damos conta depois de muito tempo. Inclusive, isso me fez lembrar de uma qualidade da mente chamada medhā: a capacidade de compreender, assimilar o conhecimento e exercer discernimento diante de uma informação. Nas minhas orações eu peço por medha.
O curioso é o que a aula de vedanta me mostrou sobre a razão disso. Aprendi sobre Avinayam, a arrogância, a necessidade de se mostrar especial ou de estar sempre certo. E fiquei pensando em por que a mente luta tanto para estar certa. Na verdade, existe um paradoxo: queremos nos conectar e ser amados, mas, muitas vezes, a maneira como tentamos conseguir isso acaba produzindo o efeito contrário. Como se estar certo fosse a razão para ser amado. Esconder quem sou para caber funciona do mesmo jeito. Faço isso querendo aproximação e o resultado é uma distância sutil, porque a confiança só se estabelece quando os dois lados conseguem ser autênticos.
Outra ideia que ficou comigo foi a de que estar errada é uma oportunidade. Quando estou errada, posso olhar, fazer um autoestudo e aprender. Estar sempre certa é ficar no mesmo lugar, sem evoluir. Se defender o tempo todo é querer estar certa, e isso custa crescimento. Abrir mão dessa defesa é abrir espaço para olhar para dentro.
Quando me perguntei o que aconteceria se meus alunos conhecessem a Francine inteira, a resposta veio sem esforço: eles iam gostar. O medo só está na minha frente. Não é um muro que os outros levantaram, é uma sombra que eu mesma projeto no caminho. Ou seja, não é o mundo necessariamente impedindo minha expressão; sou eu que, antecipando uma rejeição, acabo me escondendo.
É esse o convite que recebo do estudo do Vedanta: (https://vedanta.com.br) levar o que aprendo para dentro de casa e, a partir dali, aparecer inteira em todos os lugares onde eu estiver, inclusive na sala de yoga. Ainda não sei exatamente como isso vai se desenhar nas minhas aulas por aqui, mas já sei que o primeiro passo é parar de tratar o que eu sou como algo que precisa ser escondido.